quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Antares - Bem vindo a um mundo novo. One-Shot


Essa é uma nova versão de um antigo personagem, que já teve algumas histórias contadas aqui no UNF.
Conheçam um novo mundo de personagens heroicos, outros nem tanto, de sociedades e agências secretas e suas batalhas pelo domínio desse e de outros mundos.
Acredito que a história vai agradar aos nossos queridos leitores, portanto, sem mais delongas, boa leitura.








- Esse filme ficou bom demais!

- Com certeza! Eu não tava botando fé, mas cacete! Filmão!!

- Ah, sei lá... Eu achei que ia ser mais fiel aos quadrinhos...

Em meio às pessoas que também saiam daquela sessão do cinema no shopping, cada um tomando seu caminho, três amigos seguiam para a praça de alimentação.

- Quer fidelidade? Vai ler os quadrinhos Afonso... – um jovem de cabelos castanhos e uma camiseta com um martelo estampado não deixava de olhar às garotas ao redor enquanto retrucava o amigo. – Achei demais todos os heróis reunidos...

- É verdade Afonso... – agora era Caio, um jovem de cabelos negros e bem acima do peso só tinha olhos para escolher a lanchonete onde iriam comer. – Tem gente que não entende que esses filmes não são feitos pros fãs, mas prá massa... E eles precisam ganhar grana.

- Ainda assim achei que podiam ter pego um dos vários arcos dos quadrinhos e adaptar... – o inconformado Afonso percebeu o pouco caso dos amigos e encerrou o assunto, ajeitando os óculos e aproveitando o corpo magro para desviar dos transeuntes. – Ah, quer saber... Dane-se... Depois coloco no meu blog uma resenha com nota baixa... Bora comer?

- Antes eu vou no banheiro... Sabia que não devia ter bebido tanta coca...

- Belê... A gente vai entrando na fila.

Conforme os amigos se afastavam Vitor reparou uma bela morena, parada perto do corredor dos sanitários, os olhos verdes dela atraíram os dele, mantendo fixos neles até que o rapaz acabou observando todas as belas curvas do corpo dela e finalmente entrou no banheiro masculino.

A imagem da garota se fixou na cabeça dele enquanto estava no banheiro e quando seguiu até as torneiras percebeu alguém entrando logo atrás de si, mas não deu maior atenção a um fato tão comum.


- Tá com as mãos bem limpas? – ele se voltou e a mesma morena dos olhos claros estava agora de costas para a porta do banheiro. – Espero que sim...

- Hã... – Naquele momento passaram pela cabeça do jovem todos os filmes pornôs que ele havia baixado na internet, enquanto pensava em algo legal prá dizer. – Moça... Eles tem câmeras por aqui...

Enquanto colocava a mão na cintura, a bela garota dava um sorriso meio de lado, tirando os cabelos de forma lenta e sensual de cima de seus ombros.

- Eu me divirto mais e mais a cada encontro nosso Vitor... – ela deus alguns passos na direção dele, que sentia-se cada vez mais excitado e assustado com aquela situação, mas parou a poucos centímetros o rosto do rapaz. – Eu só vim aqui te falar uma coisa...

- O-o que... – “Merda! Não gagueja seu babaca!” – Q-quer dizer... O que você poderia querer dizer para mim?

- Hibernante... É hora de acordar.

E para Afonso foi como se o mundo explodisse em luz.

XXX

Alguns momentos atrás.

- Você é o novato? Sidney?

Uma pergunta retórica, uma vez que a postura do jovem deixava claro que era a primeira vez que ele estava por ali.

- Hã... Sim... – Ele se colocou de pé, a letargia em que se encontrava passou num instante, agora sua curiosidade iria guiá-lo. – Sou eu.

- Perfeito... Como acontece com todos os novatos, aposto que você não leu nem metade dos documentos que lhe foram enviados... – O recém-chegado começou a andar e fez um sinal para que o outro o seguisse. – Vamos caminhar que vai ser mais fácil para te passar os esquemas dessa agência... Aliás, só para começar, você já entendeu o que fazemos aqui?

- Sim senhor... O projeto Sonhar é um tipo de agência mantenedora da paz mundial, que usa de super agentes para proteger o planeta de invasões de outras dimensões.

- É um bom modo de simplificar as coisas... Novato. – O fato de ser observador, Sidney acreditava, era o principal fator responsável por sua presença ali, portanto enquanto seu guia continuava a falar, o rapaz não conseguiu deixar de reparar no homem à sua frente.

Ele tinha feições orientais e usava um longo sobretudo nos ombros, que cobria uma roupa aparentemente cara, um sóbrio terno risca de giz, mas que deixou aparecer alguns coldres de armas que não pareciam terrestres.

- A primeira invasão da até então desconhecida outra dimensão, ocorreu a vários anos resultando num dos mais famosos casos de acobertamento da história... Já ouviu falar de Chernobyl não é?

- Sim... A cidade que foi abandonada por causa do acidente radioativo da central nuclear construída ali certo? Mas, espera aí... Acobertamento?

- Realmente você não leu os documentos... Bem, resumindo muito, o que aconteceu naquela cidade realmente foi a primeira de muitas invasões, vindas de uma dimensão paralela à nossa... – O outro permanecia aparentemente calmo “Bom... Esse pode vir a ser um bom agente de campo...” após esse pensamento o guia voltou a falar. – A composição química da criatura era tão incomum que assim que entrou em contato com nossa realidade causou uma reação em cadeia que foi acobertada pela farsa de Chernobyl...

Sidney estava boquiaberto, não apenas pelas explicações que lhe eram dadas com um tom tão natural, como alguém que fala dos mais recentes vencedores do campeonato paulista, mas principalmente por causa da sala em que os dois entravam naquele momento.

As paredes estavam ocupadas por imensos telões holográficos mostrando informações e imagens do mundo inteiro, filtradas pelos dedos rápidos de um grupo formado por cerca de trinta técnicos.

No centro, ao redor de um tipo de mesa com vários terminais, outras pessoas estavam concentradas em pequenas telas, além de movimentar maquinários que Sidney nem conseguia imaginar o propósito.

- Após o incidente original, a Agência Sonhar foi criada. – A atenção do novato foi atraída, quando o guia voltou a falar, percebendo só assim como ele havia ficado ao entrar naquela sala. – Um dos primeiros agentes a chegar no local do incidente disse que aquilo parecia um pesadelo, do qual ele queria acordar e assim fomos batizados.

- É sério isso?

- A história varia, dependendo de para quem você pergunta... No final é assim que nos chamamos e após a época da Guerra Fria, a Agência Sonhar ganhou novo significado.

- Guerra Fria?

- Outro acobertamento... Enquanto as potências acreditavam estar decidindo o destino do mundo, por detrás dos bastidores houve uma sangrenta caçada pelos nossos agentes Ômega.

- Ômega?

- Juro que não sei para que imprimimos os documentos... – o guia revirou os olhos em sinal de reprovação. – Os Ômega são nossos agentes com poderes especiais... Após a primeira invasão muitas pessoas ao redor do mundo começaram a apresentar habilidades sobre humanas... eram os agentes perfeitos para enfrentar nossos inimigos, mas de algum modo suas identidades foram descobertas e muitos morreram... Quase foi o fim da Sonhar.

Sidney estava totalmente conquistado pela narrativa, imaginando a honra que estava prestes a sentir, entrando naquela agência. Ele dizia para si mesmo que precisava ser aceito. Precisava.

- Por isso a nova geração é bem diferente da anterior por que...

A frase foi interrompida por estridentes alarmes que tocaram ininterruptamente por cerca de dez segundos.

Tempo exato para toda a Agência Sonhar funcionar como um só organismo.

- Onde está o ponto de invasão? Qual o agente mais próximo? Vamos pessoal! O tempo não para! - O guia ia distribuindo tarefas e cobrando ação de todos os presentes. - Pelo visto você vai aprender na raça sobre nossos novos agentes...

De repente tudo ficou claro para Sidney e ele entendeu que aquele não era apenas um guia, mas sim o líder máximo da Agência Sonhar.

- Senhor Oneiros! - Um técnico se aproximava esbaforido, nos braços uma prancheta holográfica repleta de informações. - O local é o topo do hospital Santa Catarina e o agente mais próximo é o Antares.

- Muito bem, enviem já a Especialista. - Ele então se voltou para o novato. - Pelo visto não preciso me apresentar certo? Abra bem os olhos e mais tarde, se o mundo não acabar, voltamos a conversar.

A única reação de Sidney àquelas palavras foi um engolir em seco, seguido de um sorriso pálido.

XXX

- Aaaahhhh... Merda... - Afonso se erguia sofregamente, apoiando uma das mãos na pia do banheiro, enquanto mantinha a outra apertando sua cabeça. - Não dava prá inventar algo menos doloroso prá me despertar?

Um minuto de silêncio frio foi a única resposta da bela morena e enquanto o rapaz ia se recompondo, jogando um pouco de água fria no rosto ela finalmente voltou a falar.

- Se já deixou a frescura de lado, podemos nos concentrar no problema atual? - Agora foi a vez dele permanecer quieto, assumindo uma postura mais séria, enquanto ela continuava. - A Sonhar acabou de identificar nova invasão... Segundo os técnicos é uma classe Titã e o pior...

- Pior que um Titã? Por que isso não me surpreende?

- Ele está sobre o Hospital Santa Clara.

Sem falar mais nada Afonso empertigou o corpo e começou a se concentrar. Seu corpo começou a emanar uma luz dourada e de repente suas roupas civis deram origem a um uniforme negro que lhe cobria quase todo o corpo, deixando apenas a cabeça e as pontas dos dedos de fora.

Detalhes brilhantes surgiram nas pontas dos pés, na parte frontal da canela e coxas, bem como no peito e costas dos antebraços. Sobre seu tronco se materializou uma jaqueta quase toda vermelha, com exceção dos ombros e na área ao redor do pescoço que apresentavam um tom acinzentado.

A poucos centímetros de distância do peito a imagem estilizada de uma estrela completava seu uniforme, conforme seus olhos foram cobertos por lentes holográficas escuras, que serviam também para se comunicar com a base da agência Sonhar.

Sem dizer mais nada ele fez seu corpo se transformar em luz, partindo imediatamente para o local indicado pela Especialista que, vendo-se sozinha no banheiro levou um dedo ao seu ouvido esquerdo.

- O Hibernante decolou.

XXX

De volta para a base da Agência Sonhar.

- É isso mesmo novato... Nossos heróis vivem vidas falsas, criadas para proteger suas identidades, evitando assim outra caçada como a de anos atrás... – mesmo que ainda continuasse falando com Sidney, Oneiros não desviava sua atenção das telas holográficas. - Eles ficam em estado “hibernante” só aguardando ser despertado por um agente especial quando necessários. Finalmente...

Na tela maior do local, as linhas de telemetria indicavam os sinais vitais de Antares, além de outras informações, conforme ele finalmente chegava até seu destino.

XXX

- Mas que mer... – Antartes acabara de pousar no teto do hospital, levando imediatamente um dedo até o ouvido esquerdo. – Pessoal? Vocês estão bebendo? Não vejo nenhum Titã aqui... Apenas uma garotinha.

Na sala de comando da Agência Sonhar, uma imensa tela mostrava a telemetria da missão, focada principalmente nos sinais vitais do agente de campo.

Estamos com o áudio na tela Antares...” era um dos técnicos quem se comunicava com o jovem herói “Pode parecer impossível, mas é dessa menina que as ondas titânicas estão sendo emitidas... Tome cuidado.”

- Ah, tá, claro... Ela parece mesmo muuuito perigosa. – ignorando os avisos, ele foi se aproximando da menininha, reparando que ela não deveria ter mais que dez anos e que seu vestido estava com alguns rasgos estranhos. – Oi lindinha... Tudo bem? Não se assuste, eu sou amigo...

Apesar de estar falando com a voz mais calma possível, a garota continuava parecendo assustada, abraçando a si mesma, começando a fazer um “beicinho”, deixando claro, ainda mais pelas lágrimas que começavam a surgir em seus olhos, que ela iria começar a chorar.

- Não... Não... Fica calma lindinha... Não vou te machucar... – mais alguns passos e ele acabou por segurar levemente em um dos ombros da menina, algo de que logo se arrependeu. – Mas o que...

Primeiro foi como se uma pequena cicatriz surgisse, atravessando o rosto da menina, passando pelo pescoço e sumindo dentro de sua roupa. Ela berrou em desespero e logo a cicatriz se abriu.

- Não! – Antares se lançou ao ar, vendo impotente o corpo da criança cair, cortado exatamente ao meio, enquanto uma criatura horrenda surgia, crescendo de forma descontrolada, até cobrir quase todo o teto do hospital. – Merda! Pessoal, estão vendo isso?

O monstro lembrava um gigantesco polvo, com tentáculos repletos de imensos e pontiagudos dentes, alguns se cravando nas paredes laterais do prédio, enquanto uma imensa bocarra se abriu para emitir um urro animalesco.

- Cacete! – Antares estendeu seu punho direito para frente, usando um raio de energia para cortar o monstruoso tentáculo que vinha em sua direção, jogando-o no meio da Avenida Paulista interrompendo assim o trânsito. – Mandem já uma equipe de evacuação! Isso vai ficar feio! E analisem esse monstro, preciso ter certeza de que a menininha está mesmo morta ou se pode ser salva de algum jeito!

Velocistas em ação” o aviso de um dos técnicos da Sonhar foi seguido pelo estranho desaparecimento dos transeuntes, que pareciam ressurgir a alguns quilômetros do local da luta, sem imaginar como haviam chegado ali.

- Ótimo... Garantam que ela também esteja em segurança... - Assim que disse isso Antares mergulhou na direção do monstro, usando seus poderes para tirá-lo do prédio, sem no entanto feri-lo. - Como vai a análise da criatura?

- Vamos lá pessoal! Nosso agente precisa desses dados imediatamente! - Oneiros se voltou para Sidney, deixando mais claro o que estava acontecendo, após notar as dúvidas no rosto do novato. - A “ela” a que ele se refere é sua mãe biológica... Quando os poderes dele se manifestaram pela primeira vez ele destruiu toda sua casa. - Ele percebeu o olhar assustado do outro. - Sim... Às vezes isso acontece, infelizmente mais do que eu gostaria... No caso do Antares, ele e sua mãe foram os únicos sobreviventes, mas ela está em coma desde então.

Sidney ficou de lado, enquanto o líder da agência se afastava por alguns momentos, dando instruções a seus técnicos e conferindo ele mesmo as informações que chegavam a respeito do monstro.

- Enquanto o Afonso mantém sua identidade em segredo... - Parecendo surgir do nada, a Especialista se colocava ao lado do novato. - Com uma família e amigos que são, na verdade, nossos agentes, ele garante a segurança e tratamento da mãe... Por isso ele está atuando mais sério do que de costume, já que a mantemos justamente naquele hospital.

Foi impossível não reparar na beleza da garota, com seus longos cabelos azulados caindo por cima dos ombros, o rosto típico de uma modelo e o uniforme colante que deixava à mostra suas generosas curvas, mostrando linhas brilhantes que pareciam mudar de cor a cada minuto.

- Preciso, aliás que você investigue isso... - Era Oneiros quem que aproximava dos dois. - Estou desconfiado de que nosso velho inimigo possa estar por trás desse ataque e quero evitar uma nova caçada... Descubra se há ligação entre o monstro e o ataque justamente a esse local...

A ordem mal fora dada e a garota desapareceu, logo após as linhas de seu uniforme assumirem uma cor dourada.

- Ela é de longe uma das nossas melhores agentes. - os olhos de Oneiros pareceram brilhar por um momento, deixando claro que seu apreço pela agente ia além do profissional. - Certa vez...

Os alarmes voltaram a tocar, chamando a atenção para a maior das telas holográficas.

- Temos problemas.

De volta à Avenida Paulista, Antares percebia in loco a extensão dos problemas.

- Fala sério! – O jovem herói voava ao redor do monstro que, uma vez nas ruas, fez seus tentáculos se cravarem no asfalto, destruindo os túneis do metro da região. – Prá que que ele quer se prender tanto?

Novo rugido do monstro, seguido de uma balançar de tentáculos que fez Antares abençoar em seu interior os velocistas que haviam evacuado a área, uma vez que um prédio próximo começava a desabar.

Os destroços foram reduzidos a poeira, após nova leva de raios energéticos, causando uma espessa nuvem que quase cobria o monstro, que parecia estar aumentando de tamanho.

- O que que é isso? – O tentáculo que havia sido separado do monstro anteriormente, agora se erguia no ar, tentando atingir o herói, que usou uma rajada mais forte, reduzindo o apêndice a cinzas. – Mas que merda é essa?

Antes de ele poder especular o que estava acontecendo, a criatura atacou em silêncio, conseguindo acertar seu inimigo, que acabou atravessando as vidraças de um prédio próximo, acabando com um escritório de advocacia no processo.

- Certo... – Antares olhava ao seu redor e assim que percebeu onde estava levantou-se lentamente, um sorriso discreto no rosto. – Isso até foi bom prá humanidade... Agora bora voltar prá luta.

Ele saltou pela janela, se jogando na direção do monstro que parecia ainda maior que a última vez que o tinha visto, se desviando dos ataques e acertando doses generosas de rajadas de energia na carne esponjosa, que explodia em bolhas mal cheirosas.

- Mas que nojo! – Ao ser atingido por um jorro de gosma, o herói teve que segurar o lanche que comera antes do cinema. – Ainda bem que meu uniforme é de energia... Não ia ter lavagem que salvasse ele.

De repente um grito de criança chamou a atenção do herói, que acabou atingido no flanco direito, acabando por ser jogado contra o chão, caindo aos pés de um pequeno menininho, que chorava copiosamente.

- Cacete pessoal! – Assim que ergueu um campo de força, protegendo ele e a criança de outro ataque, Antares levou um dedo ao seu comunicador. – Os velocistas tão dormindo? Ainda tem uma criança aqui!

Os golpes iam ficando mais fortes, mas o jovem não deixaria que a criança se ferisse, não importando o quão difícil fosse manter o domo de energia ao redor deles, mas sua concentração falhou quando recebeu uma resposta da Agência.

Nossos aparelhos não indicam uma criança, mas outro Titã”

- Tão de sacanagem comigo né?

Mal acabou de falar e antes mesmo dele se virar, a criança começou a gritar exatamente como a anterior, tendo o corpo retalhado e liberando outro monstro.

Com um crescimento assustadoramente rápido, a segunda criatura logo estava do mesmo tamanho da primeira e ambos se uniram num abraço onde suas carnes começavam a se mesclar, formando toda uma massa disforme e cheia de tentáculos.

- Podem falar... – Antares permanecera estático, sem imaginar como resolver a situação, até que recebeu uma nova chamada da Agência. – Oneiros?

- Sou meu mesmo Antares... – o líder fazia sinal para que todos os presentes ficassem em silêncio. – Os técnicos não estão encontrando nenhum sinal de genes humanos... Quem quer que fez esses monstros pretendia usar o lance das crianças exatamente para que se evitasse destruí-los entendeu?

- Sim... Eu entendi...

Ele nem se deu ao trabalho de desligar o comunicador, deu alguns passos na direção das criaturas, que tentavam acertá-lo sem sucesso devido ao campo de força que ainda mantinha ao seu redor.

Um dos tentáculos se ergueu para um novo ataque, mas não completou o movimento, sendo desintegrado com outra rajada de energia.

Antares abaixou lentamente o punho, ainda com energia crepitando nela, seu rosto permanecia abaixado e sério, não estava totalmente convencido das palavras de seu líder, mas sabia que, ao menos, precisava eliminar as ameaças imediatas.

Ele retornou aos ares, agora destruindo sistematicamente todos os tentáculos, até sobrar uma massa disforme, que tentava desesperadamente mordê-lo. Antares normalmente faria alguma piada, mas a lembrança das crianças o impedia.

Um punho brilhante foi esticado na direção do que restara do monstro, os olhos do herói se estreitavam, a boca se contraiu, se houvesse alguma chance das crianças ainda estarem vivas ele não poderia sacrificá-las.

- Eu não faria isso se fosse você... – Uma estranha voz ressoou à suas costas, fazendo com que ele se virasse, pronto para um novo combate. – Uau... Você tá mais bonito do que eu me lembro...

Antares acabou por ficar estático, admirando a recém-chegada.

O corpo possuía belas curvas e seios de tamanho perfeito, nem grandes demais ou pequenos, os cabelos eram de um verde escuro, doentio, uma máscara lhe cobria todo o rosto, impedindo qualquer reconhecimento.

O que chamava mais a atenção, no entanto, eram os braços.

Extremamente monstruosos, parecendo ser feitos de um tipo de pedra vermelha, terminando em quatro garras disformes que se moviam de forma ameaçadora.

- Não vai querer ferir o bebês da... Mamãe.

- Mamãe? Tá de sacanagem né?

- Preferiria Mulher Monstro? Ou algo mais explicativo? Criadora de Monstros? Mamãe tá de bom tamanho, afinal de contas...

Sem completar a frase, com um único salto, ela cobriu a distância que os separava, passando suas garras perigosamente perto do peito do herói, acertando somente a imagem de estrela que ele exibia.

- Até que você é rápido não é? – Ela ajeitou o corpo, ficando de lado numa pose sensual. - Só precisa aprender a cuidar da retaguarda...

A criatura fez nascer um novo tentáculo, que conseguiu acertar o herói pelas costas, lançando-o de encontro a sua inimiga que aproveitou a chance para desferir um potente soco no queixo dele, que voou de encontro ao monstro.

A bocarra se escancarava, pronta parta se alimentar, mas graças a um fio de consciência, ele acionou seus poderes, assumindo uma forma energética que atravessou o monstro, parando do outro lado da avenida.

Mal conseguiu focar a visão, sua inimiga já se encontrava a poucos centímetros de distância, atingindo-o no queixo, o que fez o jovem se erguer no ar até o quinto andar do prédio mais próximo.

No meio do voo involuntário ela surgiu novamente diante dele, acertando um chute certeiro no estômago e o herói atravessou várias paredes, destruindo tudo que entrava em seu caminho.

Enquanto ele tentava se erguer, empurrando uma pesada mesa que estava encima de seu corpo, a garota surgiu do nada mais uma vez agarrando a mão dele e jogando-o mais uma vez na rua.

Uma cratera se abriu após o impacto do jovem contra a rua logo abaixo, acabando por destruir boa parte da estação do metrô e em meio à dor lancinante que lhe atingia Antares mais uma vez deu graças pela evacuação garantida pela agência Sonhar.

Após balançar a cabeça, procurando se recuperar, ele sentiu uma leve brisa lhe atingir, um vento que antecedeu o golpe que tentava atingi-lo na cabeça, que ele conseguiu evitar por poucos segundos, se transformando em energia e disparando uma rajada contra sua inimiga.

O punho feito de pedra se abriu e um cristal acabou por desviar o raio, destruindo mais uma área do metrô, até que o herói, percebendo que seu ataque não havia surtido efeito, resolveu mudar a estratégia.

Ele voou na direção dela, mais rápido que a reação da mesma, agarrando-a pela cintura e atravessando o teto, indo parar novamente na Avenida Paulista, onde Mamãe conseguiu se libertar após um golpe nas costas do herói.

Os dois pareciam cansados, perdendo uns instantes para recuperar o fôlego, mas logo a garota saltou com os punhos à frente de seu corpo, que foram interceptados por esferas energéticas, criadas pelo Antares pouco antes do impacto.

A disputa permaneceu empatada por longos minutos, mas de repente o monstro, que havia permanecido estático após perder os tentáculos, conseguiu criar um novo, acertando violentamente o herói, jogando-o longe

Ele destruiu a fachada do Hospital em seu “pouso”.

Ainda assim, com ferimentos vertendo sangue por várias partes do corpo o jovem herói tentava ficar em pé.

- Então... - Procurando retomar o fôlego Antares ainda tentou ganhar tempo. – Você... Se vendeu aos invasores? Quanto custou... Para trair a raça humana?

A gargalhada da Mamãe ecoou pela deserta Avenida Paulista, surpreendendo seu oponente, que só podia dar graças por estar finalmente se recobrando, ainda que sentisse um dos dentes amolecidos, um braço provavelmente quebrado e um dos olhos inchado.

- Ah... Fazia tempo que eu não ria tanto... – Ela começou a retirar sua máscara, a fim de coçar um dos olhos e limpá-lo das lágrimas que corriam por sua face. – Com certeza seu chefe não contou nada para você mesmo...

- Eu... – Antares balançava a cabeça rapidamente, algo no rosto da garota era extremamente familiar – Eu te conheço?

- Não se lembra mesmo... Pois agora vou te contar toda a verdade...

Na Agencia Sonhar Oneiros fechava os punhos até quase as unhas fazerem sua palma sangrar. Ele baixou sua cabeça, fechou os olhos por um momento e quando se recuperou apenas sussurrou:

- Desligar. – E no instante seguinte todo o local caiu na mais completa escuridão, com os presentes caídos sem sentidos. – Maldito seja... Pois bem... estou em Xeque.

- Meu nome é Carina... Lembra? – Assim que percebeu que o outro começava a reunir energia nos punhos a garota se sentou na calçada, mantendo seu monstro sob controle e assumindo a posição mais inofensiva que podia. – Sua melhor amiga na escola... Da época do seu... Acidente.

No mesmo instante Antares lembrou-se de chegar em casa, após uma ida ao médico com seu pai, que tentava descobrir por que o garoto estava tendo estranhas e insuportáveis dores de cabeça.

Mal seu pai fechara a porta, as dores voltaram, fazendo com que Afonso se ajoelhasse no chão da sala, as mãos apertando suas têmporas, enquanto pequenos fachos de energia saíam de seus olhos.

Antes de alguém fazer algo, seu pai se aproximar, sua mãe sair da cozinha, ou mesmo Afonso sair correndo dali, os poderes do garoto se manifestaram pela primeira vez.

A explosão pôde ser vista a muitos quarteirões dali.

As lembranças do jovem ficavam confusas, mas tempos depois ele se encontrou com Oneiros, que o convidou a entrar na Agência, prometendo cuidar da única sobrevivente em troca do uso dos poderes dele para defender o planeta.

Desse modo ele se tornou Antares.

- Mas... Eu... – O jovem sentia-se confuso, sua cabeça doía e ele sentia dificuldade em ficar de pé, seria mesmo sua vida uma mentira como a garota estava insinuando? – Não posso acreditar nisso...

- Se vier comigo, meu chefe pode revelar para você toda a verdade e... AAARRRGGGHH!

A garota caiu desacordada, após seu corpo ter sido atingido por trás com uma energia desconhecida e a alguns centímetros dela estava o responsável.

- Oneiros? Que que cê tá fazendo aqui?

- Evitando que essa maluca coloque alguma dúvida na sua cabeça...

- Dúvida ou verdade?

Silêncio.

Antares até conseguiu fechar seus punhos e energizá-los, mas antes mesmo de pensar em agir, Oneiros foi mais rápido.

- Hibernante... Hora de dormir.

No instante seguinte o jovem herói seguia sua inimiga e jazia desacordado no chão.

- E assim mantemos nossas crias sob controle não é... Irmão?

No céu, poucos metros acima de onde estava o líder da Agência Sonhar, flutuava uma estranha massa de energia negra que parecia assumir uma forma próxima da humana.

- Uma sobrevivente? Sério? Confesso que por essa eu não esperava...

- Ah, irmão... Sempre consigo te surpreender não?

- Se queria falar comigo, era mais fácil ligar para meu escritório.

- Mas não seria tão espetacular não é? – A sombra abriu os apêndices que faziam às vezes de braços, mostrando a destruição ao redor. – Seres da nossa grandeza precisam de locais grandiosos para suas reuniões.

- Bem... Então, por favor, não tome mais meu tempo... O que quer?

- Só queria lembrar que o dia do combate final se aproxima... – Agora a criatura apontava para o herói caído. - E espero que isso não seja o que você chama de campeão...

- O tempo está passando...

- Certo... Queria apenas saber se não gostaria de adiantar o combate final... Claro que vai querer mais tempo para preparar... Bem... Isso... – ele apontou mais uma vez para o jovem herói caído ali perto. – E como pode ver, eu também resolvi entrar no seu jogo...

- Jogo?

- Sim... Essa idiotice de criar campeões entre os humanos... Acobertar nossas batalhas pregressas com mentiras e cortinas de fumaça, como na época de... Como era o nome da cidade?

- Chernobyl...

- Isso, isso... Ou quando comecei a caçar seus preciosos “heróis”... A desculpa da vez foi de um inimigo da “realidade inimiga” que havia descoberto a identidade dos seus agentes não é? O pior é que todo mundo cai nessas histórias que você inventa... Fantástico!

- Jura mesmo que tudo isso foi apenas para você vir reclamar novamente de como estou conduzindo nossa disputa? Ou queria apenas dar a sugestão ridícula de a adiarmos?

- Esses eram apenas assuntos que eu sabia que a resposta seria negativa... Na verdade queria mesmo avisar que resolvi seguir seu exemplo, apesar de estar achando extremamente tediosa... Essa garota, a Mamãe, é um dos vários experimentos que estou conduzindo... Você criou “heróis”, nada mais lógico que eu crie vilões... Isso posto, com licença...

Mamãe e os monstros criados por ela foram desaparecendo pouco a pouco em nuvens negras deixando para trás uma destruição que ocuparia o líder da Agência Sonhar por um bom tempo.

- Marque esse dia meu adorado irmão... – Agora era o criador da vilã quem falava. – Hoje é o dia em que nasce Nêmeses, o criador de monstros...

Segundos depois Oneiros estava sozinho.

Ele olhou para os lados, então focou no herói caído e começou a caminhar lentamente em sua direção.

Havia muito a ser feito.

XXX

- Então... A tal de Mamãe conseguiu atacar a Agência, derrubou todo mundo e te obrigou a ir a campo? Tudo isso sozinha?

- Acredito que tem mais algum jogador nesse tabuleiro Especialista... Mas no momento o que interessa é que as obras na Avenida Paulista já começaram e todos acreditam que o heroico Antares salvou o dia... Eu só precisei ajudá-lo a voltar para a base e se recuperar dos ferimentos.

- Já coloquei o Hibernante para dormir... Amanhã Caio e Afonso vão visitá-lo, “lembrando-o” de que ele passou mal após o filme e foi direto prá casa... Seus pais vão confirmar.

- Excelente... Pode descansar então Especialista... Assim que puder me entregue um relatório da missão.

Só então Oneiros se voltou para seu visitante.

- Então Sidney... O que achou? Esse foi um dia típico na Agência Sonhar... Acha que pode se ajustar ao nosso ritmo? – ele então estendeu a mão direita na direção do jovem à sua frente. – O que me diz?

Foram necessários poucos segundos para que Sidney apertasse a mão que lhe era oferecida.

- Estou ansioso para começar senhor!

- Perfeito! Amanhã nos encontramos mais uma vez... – O mais novo agente da Sonhar começou a sair do escritório de Oneiros, mas este ainda tinha uma última palavra. – Sidney?

- Sim senhor...

- Seja bem vindo a um novo mundo...

O jovem esperou se afastar do escritório e, com receio de que pudesse haver algum telepata na área, apenas se permitiu um rápido pensamento “Estou dentro senhor N” e logo depois seguiu seu caminho apressadamente.

Alheio a esse acontecimento, quando finalmente se viu sozinho, Oneiros se voltou para a janela, na verdade um holoquadro, onde várias paisagens iam mudando a cada intervalo de quinze minutos.

Em sua mente ele repassava os passos após a partida de seu irmão, Nêmeses, quando só lhe restava reescrever as memórias do desacordado Antares, levá-lo para a área médica da Sonhar e fazer com que seus demais agentes acreditassem que haviam sido alvo de um ataque externo.

Agora o inimigo, que já era perigoso, oferecia um desafio ainda maior, o que acabou fazendo com que Oneiros desse graças pela disputa que ele e seu irmão cósmico realizavam, de planeta em planeta, querendo ver quem criava os mais poderosos peões, resultando ora na vitória de um, ora do outro, mas evitando que os dois imortais acabassem tomados pelo tédio.

O sorriso involuntário ainda marcava seu normalmente sisudo rosto e sua mente começava a fazer os planos necessários, tentando prever as ações de seu irmão.

O devaneio foi interrompido pelo som de alarmes.

- Senhor Oneiros... – um comunicador do tampo da escrivaninha do escritório. – Um homem que dispara raios de energia está mantendo vários reféns no Cristo Redentor.

- Certo... Chame Isabella e mande-a despertar o Patriota... Já estou indo. – Após esfregar os olhos demonstrando certa irritação, um traço humano que ele acabou emulando, Oneiros deixou sua sala. - Até que não demorou muito... Irmão... Vejamos o que vem a seguir.

Fim?

sábado, 28 de abril de 2012

Ab Irato



Ab Irato.

Domingo era o dia preferido pelo pequeno Peter, pois era aquele escolhido por seus ocupados pais para ser exclusivo da família.

O ponto alto para o garoto era a visita matinal ao parque localizado a poucos minutos de caminhada de sua casa, caminho pelo qual ele era sempre guiado pelos pais, mantido entre os dois, sentindo-se extremamente seguro.

Mesmo assim, no alto de seus dez anos e cheio de ansiedade, ele só esperava os pais sentarem e começaram a arrumar o piquenique para ir o mais longe que podia, procurando por novas aventuras.

Certa vez ele subiu numa árvore, mais alta do que seu instinto de preservação fora capaz de perceber, à procura de terríveis invasores espaciais, o que resultou num pulso quebrado.

Lory, sua mãe, quase teve um ataque quando Peter, após salvar o mundo das ações de um cientista louco, apareceu no piquenique com sangue saindo em profusão do nariz.

“Esse menino só apronta...” As palavras da mãe quase sempre se repetiam, com poucas, ou nenhuma alteração “Só está vivo até hoje por que deve ter uma centena de anjos da guarda... Por Deus!!!”

Sem que ninguém pudesse ver ou perceber, no plano celestial, tais comentários faziam surgir pequenos sorrisos do rosto quase sempre sisudo de Ayel, o anjo designado para proteger Peter, função que exerceria sozinho, ou sozinha, como alguns poderiam preferir, ao contemplar suas perfeitas formas femininas, cobertas por uma túnica de tecido tão leve que dava a impressão de cobrir o corpo de sua dona com nuvens.

Seu rosto mantinha naquela manhã uma feição sisuda, as sobrancelhas abaixadas, os olhos se mantinham apertados, atentos a tudo que rodeava ela e seu protegido.

“Amanhã será o dia Ayel...” as visitas do Arcanjo Gabriel costumavam ser breves e anteceder verdadeiras tempestades “O dia que tanto esperávamos finalmente chegou...”

As lembranças tomavam a mente da guardiã, mas mesmo assim seus olhos continuavam fixos em Peter, principalmente por que seus pais finalmente haviam achado o lugar perfeito, o que fez o garoto se afastar de imediato.

Ele seguia por um caminho cimentado, cercado dos dois lados por uma vegetação rasteira, mas logo um estranho som lhe chamou a atenção, fazendo-o ignorar as placas de “Não pise na grama”, já se transformando um soldado audaz, à procura dos inimigos.
O que ele encontrou, no entanto, não foram dúzias de soldados armados, preparando uma emboscada, mas algo para o qual a criança não estava preparada.

Perto de uma árvore jazia um cachorro, com uma das patas muito machucada. Provavelmente fora atropelado e se arrastou até onde conseguira, ao menos foi o que Peter imaginou.

Ele permaneceu parado olhando fixamente para o animal, em sua mente iam surgindo várias possibilidades do que fazer naquele momento. Seu anjo da guarda sabia que era necessário sussurrar boas intenções para seu protegido, mas antes de poder fazer o que pretendia o tempo pareceu congelar.

Ayel percebeu uma distorção na realidade celeste e enquanto olhava atentamente ao redor, sua túnica deu lugar a uma armadura de batalha, ornamentada com caracteres em tons de azul e dourado, ao mesmo tempo que suas majestosas asas brancas se abriram ao máximo.

Na mão direita uma espada flamejante se acendeu.

- Apareça ser imundo... Seu fedor o denuncia.

Como que em resposta uma nuvem negra surgiu diante da guardiã, tomando pouco a pouco a forma de um guerreiro de armadura dourada, com adornos negros e um machado de mesmo tom.

- Krutofor... Não se cansa de ser derrotado por mim? – Ayel mantinha a ponta de sua espada na direção da garganta do demônio. – As últimas vezes em que frustrei suas tentativas não foram o suficiente? Suas “asinhas” estão curadas?

O ser infernal moveu um dos ombros, de fato sua asa daquele lado tinha uma grande área sem penas e a lembrança da mais recente batalha com o inimigo diante de si foi mais que suficiente para que ele cerrasse os dentes.

- Sabe... Arrogância deveria ser um pecado mais grave... Mas como é uma característica típica dos anjos do senhor, isso é mais aceitável não é? – ele deu um passo para trás, erguendo a arma por cima da cabeça, como que preparando um ataque. – Que tal irmos direto ao assunto?

O anjo então segurou o cabo de sua espada com as duas mãos, mantendo uma postura de defesa. Queria que seu inimigo desse o primeiro passo, podendo assim eliminar a ameaça o mais rápido que possível. Isso sem tirar os olhos de seu protegido.

Ayel esperou pelo ataque, mas surpreendentemente, Krutofor abaixou sua arma, relaxou e com um sorriso sarcástico, cruzou os braços diante do peito.

- Quer saber? Para que sujar minhas mãos? – ele levou dois dedos à boca assoviando alto para em seguida ordenar. – Acabem com ele...

No instante seguinte Ayel se viu cercado por vários cães do inferno, todos hesitantes ao sentir a aura de poder que provinha de seu alvo, acabando apenas por ficar andando da forma mais ameaçadora que podiam.

De nada adiantou.

Quando o guardião se voltou para seu protegido, que continuava paralisado diante do cão ferido, uma das crias infernais viu o que acreditava ser uma brecha, saltando na direção de seu inimigo, a bocarra totalmente aberta, com uma profusão de dentes se projetando para o pescoço angelical.

A criatura pousou a alguns metros de distância de Ayel, permanecendo imóvel durante alguns segundos, mas logo dois cortes surgiram dos dois lados de sua boca, seguindo até o final do corpo que caiu no chão perfeitamente cortado ao meio.

Se a espada flamejante tivesse uma lâmina comum a mesma  estaria banhada no fétido sangue demoníaco, mas apenas uma pequena nuvem de enxofre subia do fogo, única testemunha do corte feito.

- O próximo?

Após se entreolharem, o membros do sinistro grupo tentaram agir com um mínimo de estratégia, com dois cães saltando de lados opostos, enquanto os demais aguardavam por um descuido.

Um deles teve a garganta agarrada pela mão livre de Ayel, que apertou até sentir as pontas dos dedos se tocando através da carne profana de seu inimigo, enquanto o outro chegou a cravar as garras no ombro do anjo, tendo até um lampejo de esperança na vitória.

O sorriso que surgiu nos lábios do anjo logo acabou com os sonhos de glória do monstro, que só então sentiu seu corpo trespassado pela espada flamejante. Ele também explodiu em uma nuvem mal cheirosa.

Pequenos filetes de um sangue prateado escorriam dos ferimentos, mas em nada atrapalharam a postura de Ayel, que se mantinha no mesmo lugar e pronta para qualquer ataque daqueles que continuavam ao seu redor, sentindo-se cada vez menos corajosos.

- Sabem que se não morrerem rapidamente pelas mãos dessa “anjinha”, vão morrer lentamente pelas minhas mãos...

Krutofor permanecia parado, acariciando a asa ferida, com um olhar de prazer sádico nos olhos, fixos no pequeno ferimento de seu inimigo. Após passar demoradamente a língua pelos lábios ele se voltou para seus servos.

- Vão mesmo ficar parados?

O tom de voz do demônio não deixava escolha e então, mesmo com todo o temor que paralisava seus corpos, os cães se lançaram ao ataque.

Diante de tantos inimigos, finalmente Ayel deu alguns passos para longe de onde estava.

A espada flamejante começou a cortar carne como a muito não fazia, levando  a mente de seu dono a eventos passados.

XXX

- Não entendo mesmo Gabriel... – Cerca de dez anos atrás ocorria uma importante reunião entre seres celestiais. - Por que trouxe até aqui? Sabe que não sou o maior defensor da raça humana...

- Por isso mesmo você foi escolhido... Cheguei a questionar nosso Pai, mas você sabe mais que eu como as decisões Dele costumam não ser tão claras... Podemos apenas ter fé...

- Nessas horas chego a pensar se tomei a decisão correta...

- Não apoiar o Estrela da Manhã durante a grande rebelião mostrou sua sabedoria e amor ao Pai... Nunca se arrependa.

- Ainda assim isso não explica você ter nos trazido aqui, diante diss... Dessa criança...

Estavam em uma maternidade comum, com crianças comuns ao redor, muitas chorando, reclamando para que lhe fosse trazido alimento, a única preocupação verdadeira que tinham no momento.

- Então devo me tornar o anjo da guarda dessa criança? É isso? Mesmo eu sendo um anjo guerreiro?

- Diante de nós está o humano escolhido para ser o novo iluminado, que guiará a humanidade para uma nova era de graça e paz... Ou o novo Anticristo, tudo dependerá da orientação espiritual que ele receber... Se algum demônio tomá-lo para si... Nesse momento você já deve estar sentindo não é?

- O fato de que toda essa construção humana está cercada por centenas de demônios... De categorias variadas?  Impossível não perceber...

- Exato... – o arcanjo desembainhou a espada flamejante, o que fez quase todas as crianças se agitarem. - Então... Você aceita sua missão?

- Certo... - Ayel olhou na direção de Peter, o único bebê da maternidade que não estava chorando, pelo contrário, dormia tranquilamente, para em seguida lhe dar um carinhoso beijo na face, selando assim sua ligação com a criança. – Está feito... Vamos lá fora silenciar esses cachorros sarnentos...

Aquela foi a primeira das muitas batalhas travadas entre anjos e demônios pelo direito de influenciar o futuro daquele menino, mas Gabriel avisara que chegaria o dia em que ele se encontraria diante de uma decisão que definiria seu futuro.

Só então ele abraçaria a luz ou as trevas.

A cada novo ataque evitado por Ayel deixou o anjo mais confiante de que teria sucesso em sua missão, que graças a ele um novo messias surgiria, salvando os inúteis humanos de um final apocalíptico.

Mal imaginava ele que era exatamente esse o plano de seus inimigos.

XXX

O número de cães demoníacos parecia aumentar, era como se para cada um destruído, outros dois tomassem seu lugar, mas ainda assim aquela luta servia apenas para lembrar o guardião de seu passado de lutas gloriosas.

Por isso Ayel não parava de sorrir.

O sangue prateado agora vertia não apenas de seu ombro, mas de vários ferimentos espalhados pelo corpo, uma das asas pendia inútil, quase partida ao meio, parte da armadura estava destroçada, deixando um dos seios à mostra.

Ainda assim o anjo da guarda continuava a destruir seus inimigos, percebendo gradualmente uma diminuição entre as forças dos inimigos. Só então Krutofor atacaria.

Naquela manhã, no entanto, Ayel teria uma surpresa.

Assim que os três últimos cães infernais tombaram sem vida, todos com seus corpos extremamente destroçados, o anjo passou as costas da mão sobre sua boca, piscou algumas vezes, vendo com orgulho sua obra.

- Foi um bom aquecimento... - Ele apertou o cabo de sua espada, endireitou o corpo e se voltou para onde estava Krutofor, mas logo percebeu que ele não estava lá. – Onde está você maldito?

Um ganido alto foi interrompido de repente, com um baque surdo, fazendo com que Ayel finalmente se lembrasse de seu protegido, mas quando olhou na direção de Peter, mesmo já imaginando o que iria ver, não conseguiu deixar de se sentir totalmente derrotada.

Enquanto o anjo deixava sua espada cair, com as chamas morrendo lentamente, seus olhos eram atraídos pela imagem do cão, que agora jazia morto aos pés da criança, a cabeça esmagada por uma pedra.

Peter arfava devido ao esforço, ao seu redor imensas asas negras e perto do ouvido direito estava a boca de Krutofor, que sorria para seu inimigo angelical, que agora caía de joelho. O peso da derrota era insuportável.

- Por isso sempre digo que a arrogância dos anjos nunca me deixa na mão... Algumas vitórias e vocês se acham imbatíveis... O menino agora é meu, belo Ayel e se nos dá licença existe todo um mundo esperando pelo seu Anticristo...

- Me mate agora maldito... – Ele caiu de joelhos, lágrimas correndo fartas pelo rosto feminino do derrotado. – Me mate ou então juro que irei me vingar...

- E perder a diversão de ver sua queda, pouco a pouco? – Enquanto o menino corria para junto de seus pais, Krutofor foi na direção do anjo. – Acho que não...

No mesmo instante Ayel cerrou os olhos, já começando a planejar um meio de se vingar do demônio, mas não voltou a abri-los.

- Claro que eu prefiro não me arriscar... – Finalmente o demônio usara seu machado, desenhando um arco perfeito no ar, cortando o que estivesse em seu caminho.

A cabeça do anjo derrotado girou algumas vezes, até cair diante do corpo. Krutofor então começou a se dirigir calmamente na direção da família de Peter, cujos olhos apresentaram um fugidio brilho avermelhado, assim que foi abraçado pelo demônio, o que fez sua mãe perguntar como ele estava.

- Estou bem mamãe... – Era seu novo guardião quem sussurrava a resposta. – Agora sim estou ótimo...


Nota do Autor: Ab Irato, em latim, quer dizer “no ímpeto da Ira”.

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