sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Império Primordial - Octógono.


Enquanto vou preparando um livro expandindo o universo apresentado no conto Anhanguera, publicado na antologia Deus Ex Machina da editora Estronho, comecei a pensar em novos conceitos para outros contos Steampunk e eis uma das tentativas.

Imaginei como seria uma luta de MMA ( Mixed Martial Arts) com elementos “à vapor” e aos poucos foram surgindo personagens e acabei me inspirando num clipe da banda Within Temptation para o casal principal.

Enquanto o conto anterior, com o personagem Jaguar-Upiara tinha como cenário Aupaba, também conhecida como Terra de Santa Cruz, esse mostra um pouco do já citado Império Primordial, de onde vêm os colonizadores (ou invasores) mostrando que existe mais nesse mundo do que parece.

Sem mais delongas, escolha seu lutador, torça muito e boa leitura.


Império Primordial
Octógono.


O golpe que atingiu seu maxilar pareceu fazer toda a cabeça estremecer e ele sentiu o corpo indo de encontro ao chão da arena onde a luta acontecia.

James “Crash” Nolan era o desafiante, que chegara até Urso, o grande campeão dos pesos pesados, após sair invicto de várias lutas. Infelizmente devido aos mais recentes acontecimentos, ele começava a temer uma derrota iminente.

Entre os flashs das câmeras, os apitos a vapor ao seu redor e as palavras desconexas de seus técnicos, chegando aos seus ouvidos totalmente distorcidas, o lutador deixou a mente vagar momentaneamente até o começo daquele dia.

XXX

Mal havia se passado cinco minutos desde a última vez e ele voltava à janela novamente para olhar a rua que estava vários andares abaixo.

Os vidros apresentavam gotas de chuva escorrendo, num dia típico de Londres, capital do Império Primordial, mas mesmo assim era possível ver os carros a vapor que haviam tomado as ruas desde sua criação há poucos meses atrás.

“Ainda vou ter um desses...” James mantinha a fronte encostada no metal frio que revestia seu antebraço direito, os olhos piscavam várias vezes, tentando manter o foco.

O som de engrenagens funcionando antecedeu a mão esquerda, que trazia uma pequena caixa negra até a altura de seu nariz, torto por causa das várias vezes que havia sido quebrado.

Ele aspirou profundamente uma nuvem de vapor, cerrando os olhos com força enquanto os efeitos do ópio concentrado iam se espalhando por todo o corpo, finalmente deixando-o relaxado.

- É isso aí... – seu sorriso ficou imenso ao reconhecer o traje vermelho que envolvia uma mulher que acabara de chegar, deixada na porta do hotel por um carro de aluguel. – Finalmente minha princesa...

James se apressou a esconder a caixa atrás de uma cômoda onde jazia um jornal amassado cuja manchete falava da viagem do famoso Cardeal Ramirez até a mais recente terra descoberta, Santa Cruz, que iria acontecer dali a alguns meses.

Alheio a isso o quarto era preenchido pelo som das placas de metal dos braços do homem, enquanto ele jogava as colchas e lençóis de volta para a cama, querendo que sua convidada ficasse impressionada.

Leves batidas na porta antecederam a entrada de uma linda mulher, vestindo uma elegante roupa de tom vermelho, um pálido reflexo dos fios ruivos que desciam perfeitamente por suas belas costas. O corpete preto, assim que ela retirou o casaco que lhe protegia da chuva, revelou um generoso decote, de onde seus seios perfeitos pareciam querer saltar, as luvas de cor avermelhada foram retiradas lentamente, deixando à mostra unhas bem feitas.

James sabia que por debaixo de todo tecido do restante do vestido escondia-se um corpo bem torneado, com curvas insinuantes, que ele ansiava por ver e desfrutar.

Os lábios estavam com um batom rosa, o máximo de maquiagem que ela se permitia usar, desse modo seus olhos verdes sempre se destacavam.

Olhos esses em que James havia se perdido anos atrás.

- Que tal princesa? – ele abriu os braços e deu um giro querendo mostrar todo o luxo que os cercava. – A suíte do KnightSteam Hotel!!! Não disse que um dia a gente ia estar aqui?

- Sim... – Ela não conseguia esconder certo incômodo. – É lindo...

James continuava a mostrar tudo o que estava à disposição deles, os lençóis macios, o banheiro que tinha uma enorme banheira, os detalhes dourados que lhe disseram ser de ouro.

A convidada, no entanto, parecia ter olhos apenas para os dois braços metálicos, cor de cobre, que seu anfitrião exibia como se fosse algo corriqueiro.

Quando percebeu estar falando praticamente sozinho James se calou, voltou-se para a mulher, suspirou de impaciência e depois de um minuto de silêncio incômodo, voltou a falar:

- Algum problema Selena?

- Eu... – Ela não encontrava facilmente as palavras. – Isso não dói?

- O que? Ah, isso... – ele ergueu o punho metálico, abrindo e fechando os dedos, um sorriso orgulhoso no rosto. – No começo a dor era insuportável, mas agora... Bem, meus treinadores disseram que quanto mais tempo eu ficasse com eles, mais rápida seria a resposta no meio da briga... – James simulou alguns socos no ar. – E sabe como é... Muitas vezes a velocidade ganha a luta... Você nem está ouvindo não é?

- Olha só para como estamos James... Eu, uma meretriz e você...

- Vai Selena... – Ele a agarrou pelos ombros, forçando seus olhos a se encontrarem com os dele. – Diga o que eu sou...

- Você tá me machucando...

- Diga!!!!

O berro foi acompanhado pela destruição de um vaso próximo, quando ele soltou um dos ombros dela, mas logo voltou a segurá-la, a pele alva apresentando manchas vermelhas onde as mãos apertavam.

- Vo-você tá me machucando...

XXX

Os lutadores haviam sido apresentados a uma plateia ávida por violência e sangue, desejos esses que não seriam desapontados.

O campeão dos pesos pesados chamava a si mesmo de Urso e fazia justiça ao tamanho do animal cujo nome adotara. Ele tinha mais de dois metros de altura, músculos saltados e cheio de veias, cabelos vermelho escuro e um imenso bigode que praticamente cobria-lhe a boca por inteiro. Uma cicatriz acima da sobrancelha era a lembrança da única derrota que ele havia tido em sua carreira.

- Vou te arrebentar pequenino!!! – Crash conseguiu apenas discernir essa frase em meio aos demais xingos que seu oponente lhe direcionava, após mais alguns socos desferidos.

O desafiante era poucos centímetros mais baixo, mas sua musculatura não devia nada ao seu oponente, unindo força e velocidade. Mantinha sua cabeça sem cabelo nenhum, deixando à mostra algumas das cicatrizes que ele ganhou nas vitórias que haviam trazido ele até ali.

Ele as exibia com muito orgulho.

As peças de armadura que cobriam os braços e pernas de Crash pareciam pesar tanto quanto no dia em que as colocou pela primeira vez, enquanto Urso parecia tão à vontade como se aquilo fosse um passeio no parque.

Um novo soco visava o rosto do desafiante, mas esse conseguiu se defender no último segundo, dando-lhe certa confiança, totalmente esquecida após levar uma joelhada no estômago.

Ele cuspiu uma quantidade generosa de sangue, cambaleou para trás e só não caiu por que acabou ficando de costar para um dos oito lados da arena, mantendo os braços cruzados diante do rosto, procurando se defender dos golpes que não tardaram a acertar todo seu corpo.

- Que Neijyn e Zalla o protejam... – uma bela garota estava em meio à plateia, tendo muito dificuldade em evitar esbarrões dos homens ao seu lado, todos gritando em frenesi. – Por que não param com essa monstruosidade?

- A senhora nunca tinha vindo ver as lutas? – um jovem de não mais que dezoito anos, resolveu puxar assunto, mais interessado na mulher que nos homens que estavam praticamente se matando no octógono. – É raro acontecer mortes nas lutas, tem muito sangue, cortes e ossos quebrados, mas a última morte deve ter ocorrido meses atrás...

“Meses atrás?” a mulher pensou que isso não era tempo demais, mas guardou o comentário para si, enquanto continuava a ouvir o homem ao lado, sem tirar, no entanto, os olhos da luta.

- As peças de armadura que eles vestem possuem pequenos “botões” vermelhos... Vê ali? No peito e nos joelhos... Quando são atingidos com força suficiente primeiro quebram, como os do desafiante... Depois as engrenagens de armadura vão perdendo a força até que o lutador cai no chão sem poder se mexer... Daí é nocaute, sem morte... Na maioria das vezes...

O que o “solícito” jovem não revelara era a ligação dos botões de engrenagens com o sofisticado sistema a vapor das armaduras, que tirava energia da água que corria por minúsculos canos de cobre, ligados a um grupo com cerca de dez pequenas chaminés, que expeliam nuvens brancas a cada cinco minutos, recomeçando o ciclo imediatamente.

O desafiante conseguiu acertar um direto no queixo do campeão, que se afastou, dando preciosos minutos para que seu adversário conseguisse retomar o fôlego, mas assim que ele avançou, um chute lateral o fez cair pesadamente no chão.

Agora Selena levava as mãos até o peito, logo acima do coração, torcendo por James e se lembrando da maneira como o havia deixado naquela manhã.

XXX

- Me larga!!! – Ela conseguiu soltar um braço, acertando um sonoro tapa no rosto do homem que ela já não reconhecia mais. – Você ficou louco?!!

A surpresa se misturou à droga recém- ingerida fazendo James cair sentado na cama, no rosto uma expressão de surpresa que logo foi substituída por um sorriso abobalhado.

Selena não podia mais suportar aquilo e então começou uma verdadeira caçada pelo quarto, terminando por achar uma pequena caixa preta, que imediatamente ela jogou pela janela.

- NNNNÃÃÃÃÃOOOO!!! – Ele se levantou tarde demais, ficando ajoelhado, tendo o corpo molhado pela chuva que entrava pela janela aberta, se voltando depois para sua amada. – Por que você fez isso?

- Olha para você... Totalmente dependente dessas peças de metal e agora do maldito ópio... Que fim para nossos sonhos não é?

- O que você queria?!!! – ele se ergueu, arrebentou outro vaso enquanto caminhava furioso na direção dela. – Por acaso deveríamos continuar como antes?Eu trabalhando no porto, carregando aquelas malditas caixas que deixavam meus ombros em carne viva e você... Nada mais que uma puta barata...

A resposta foi apenas um novo tapa, que fez James jogá-la sobre a cama, rasgando seu vestido e investindo sobre ela como um animal, forçando o sexo de modo como nunca fora necessário antes.

- Viu? – ele se afastou, a droga ainda o mantinha fora de si. – É assim que é ser apenas uma rameira... Você pode viver uma vida inteira assim?

- Se você fosse um homem de verdade eu nunca iria precisar ser assim!!! Se tivesse arranjado um trabalho digno não teria se tornado esse... Esse monstro!!!

Antes que James pudesse se aproximar, ela pegou o lençol da cama, se enrolou nele, apanhou um punhado de dinheiro que ele mantinha nas calças que estavam jogadas sobre a cama e saiu.

- Pode ir sua cadela!!!! Depois que eu vencer o campeão essa noite você vai implorar prá eu te aceitar de volta!!!

Quando conseguiu parar um dos carros de aluguel, alguém os havia batizado a pouco tempo de táxi, Selena olhou para a janela do quarto de James a tempo de ver a mesma sendo estilhaçada por uma cadeira, que caiu perigosamente perto dela.

Logo depois foi embora, jurando para si mesma que nunca mais iria atrás de seu amor.

XXX

O chão do octógono era coberto por uma lona branca com o objetivo de empolgar o público assim que o chão ficasse salpicado por sangue e naquela noite o efeito era ainda mais impressionante.

Era possível ver apenas pequenas partes da lona, o restante estava todo vermelho.

- Há!! E era esse o lutador que ia derrotar o grande Urso?!! Ora eu... – A frase foi interrompida quando o campeão foi atingido pelo punho cor de cobre do seu oponente e após cuspir alguns dentes, sorriu. – Hum... Pelo visto ainda tem madeira para queimar não é?

Outro soco, desse Urso se esquivou, acertando em cheio um soco na área vermelha da placa peitoral de Crash, fazendo assim com que as armaduras que cobriam seus braços começassem a ficar mais pesadas.

O desafiante precisava terminar aquela luta o mais rápido possível e com um urro animalesco ele se lançou contra o Urso, acertando uma boa sequencia de socos e chutes, que teriam acabado com um homem comum.

- Hahahahahahaha!!! Resolveu lutar de verdade vermezinho? – Crash se agarrou à cintura do campeão, procurando acertá-lo no flanco direito com mais socos. – Pois bem... Vou parar de brincar...

Ele então juntou os dois punhos, cruzando os dedos, ergueu-os acima de sua cabeça e começou a golpear as costas de seu oponente uma, duas, três vezes, mas na quarta, ao sentir que o aperto do outro afrouxava, conseguiu se libertar.

Crash não desistiu do ataque e ao tentar uma joelhada teve sua perna direita segura pelos braços fortes do Urso, que se preparou para quebrá-la, mas não conseguiu, pois o desafiante encaixou um soco certeiro no joelho do outro com tanta força que o mecanismo ali foi destruído.

O campeão terminou por se afastar, cambaleando por causa da perna inutilizada de repente, não acreditando que havia sido atingido daquela forma por um novato.

- Vai garoto!!!

A voz do treinador se elevou à confusão que tomava a cabeça de Crash, fazendo com que ele se erguesse, colocasse os punhos em riste, pronto para se lançar ao ataque, mas algo pareceu detê-lo.

No meio da multidão ele reconheceu Selena, os olhos se encontraram, os dela suplicantes, os dele injetados de raiva e decepção, com ela, com ele e com o mundo.

Onde afinal ele tinha errado?

Foi apenas um momento de distração, mas para o campeão um momento era tudo que ele precisava.

O primeiro soco acertou em cheio o nariz do desafiante, quebrando-o mais uma vez, impedindo assim que Crash ficasse de olhos abertos para tentar evitar os demais golpes que foram, um a um, destruindo os controles de sua armadura.

No fim da luta o que restara de James Crash jazia no chão do octógono, o único olho que ainda via algo procurava desesperado sua amada, no coração vários pedidos de perdão iam sendo formulados.

Ele a encontrou sendo agarrada por um homem que ele não reconhecia e apesar do seu desespero não conseguiu se mover, nem mesmo podia pedir socorro, uma vez que seu maxilar estava deslocado.

Conforme os médicos entravam na arena, sonhos de ser campeão iam sendo desfeitos, espalhados ao vento como um punhado de areia, sumindo da mesma maneira que a consciência do derrotado.

XXX

Meses depois, na área dos portos, um grupo de marinheiros procurava braços fortes para ajudar numa viagem para a Terra de Santa Cruz.

- Ei, olha só aquele vagabundo ali... Acho que conheço ele de algum lugar...

- Olha os braços desse cara... Parece que foram moídos... Não dá prá ele nos ajudar em nada...

- Vamos voltar para o trabalho... Ele está vindo...

O grupo se desfez rapidamente, dando passagem para um dos homens da igreja do Deus Único que terminou por ficar diante do homem que se mantinha caído numa sarjeta.

- Reconheço você... – Ele se abaixou e tomou nas mãos a cabeça do outro, segurando-o fortemente pelo queixo. – Era uma promessa das lutas ilegais... Como chamavam mesmo? Vale-Tudo Octógono, ou algo assim... Crash não é? Sim... É você... Lembra-se de Selena?

Mesmo sem ter forças, James tentou se levantar ao ouvir aquele nome, mas a falta da armadura, o tempo sem drogas e o próprio espírito alquebrado resultaram numa tentativa patética, com ele terminando por continuar estirado em meio à sujeira da rua.

- Sim... Eu acompanhei de perto sua curta carreira e vi em você um potencial que apenas os desgraçados apresentam para a igreja e os serviços do sagrado Deus Único... – Ele se voltou para dois servos que o acompanhavam, fazendo sinal para que eles erguessem o homem, o que fizeram imediatamente. – Eu sou o Cardeal Ramirez e vou te levar na minha viagem... Santa Cruz pode trazer mais ânimo para sua vida meu caro...

James se deixou levar, afinal de contas que outra escolha ele tinha?

- E, é claro... – Agora o religioso se aproximava da orelha do ex lutador. – Se me servir bem, talvez eu possa lhe dizer onde está sua amada Selena...

O corpo se agitou, mas foi fácil para os dois servos manterem ele quieto e assim que percebeu ser inútil acabou por se deixar levar, mas sua mente já começava a acreditar que poderia mesmo encontrar a amada.

- Sim... É assim que eu preciso de você... Com esperança, sem nada mais a perder... Desse modo você será um dos meus cães de guarda... Sim... Nada acontece sem as vossas bênçãos...

Foi dessa forma que o lutador James Crash Nolan abandonou o Império Primordial, indo para o novo continente, sua esperança renascida.

Infelizmente nem tudo acontece como se espera.

Fim.

2 comentários:

Jonas disse...

Gostei, ficou bem dinâmico, e a descrição da luta ficou boa também.

resgate disse...

Obrigado pelo comentário Jonas!
Eu tentei mesmo dar um clima de luta do MMA, visto que muitas acabam bem rápido.
Ainda assim queria desenvolver bem os personagens do Crash e Selena... Espero que tenha conseguido.
Muito obrigado pelo comentário, seja bem vindo à Oficina e espero que você confira as demais históris do site.
Um abração e até mais!!

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